Não há um único motivo, um único compasso, um só acorde na música de António Pinho Vargas que não imponha pensamento, que não faça parte de uma profunda reflexão sobre o mundo, que não o olhe, que não o viva e se confronte com isto de se ser humano e sobreviver. Não há uma única obra de António Pinho Vargas que não tenha em si mesma a hipótese de redenção, essa possibilidade de pensar.
Lamentos, o seu mais recente álbum, emerge num mundo que se esvai, um mundo onde a possibilidade seguinte, a esperança, se se quiser arriscar a palavra, parece ceder, exangue. E, no entanto, essa hipótese, mesmo que difusa, mesmo que ténue, parece emergir do próprio lamento. Pelo menos da maneira como António Pinho Vargas o expõe. Não por acaso, O Livro de Job é para aqui chama-do. Não por acaso, o album surge quando os conflitos se agudizam e multiplicam, quando a Terra acusa o excesso, quando a chacina se aproxima e fecha o cerco, quando não só a velha ganância, mas também a estupidez e a ignorância dominam palcos globais e o ruído do mundo se torna insu-portável.
Lamentos, o álbum, reúne três obras de António Pinho Vargas que têm em comum essa designação para um andamento mais lento, introspetivo, elegíaco. A sucessão de obras alinha-se assim por esse ponto comum, por esse olhar, essa perceção. Tem início com a Sinfonia (Subjectiva), estreada em 2019, segue com o Concerto para viola, de 2016, e encerra com o Concerto para violino, do mesmo ano, dedicado ao violinista Gareguine Aroutionian (1951-2014), que se radicou em Portugal em 1989, fez parte da Orquestra Gulbenkian e lecionou durante anos na Escola Superior de Música de Lisboa – à semelhança do compositor -, onde criou a orquestra de cordas Camerata Musart (atual Camerata Gareguin Arou-tiounian).
O título do album provém obviamente desses andamentos. Na Sinfonia toma o nome de Elegia (d’amore) e sucede ao primeiro, Sulla violenza, designação que expõe os acontecimentos que o definem. Depois dessa abertura, apenas o lamento faz sentido. São muitos os elementos por resolver, muitos os que encontram clareza e se definem, muitos os que só têm sentido no próprio lamento. A Sinfonia (Subjetiva) surge como um processo, onde não falta a inquietação nem a ironia (improbabile) do Scherzo, tão pouco a afirmação aberta do Finale. Cumpre-se na sua dimensão humana e na possibilidade (subjetiva) de cada um resistir.
O Concerto para viola, originalmente estreado por Diemut Poppen, toma por referência O Livro de Job do Antigo Testamento: o homem rico que perde família e fortuna, pondo em causa a bondade de Deus, o seu desígnio e, com ele, a sua fé. Na linguagem de António Pinho Vargas, é a dúvida que prevalece, são as perguntas sem resposta, é a ira e o abandono em si mesmo. E a resolução possível, no mais profundo do ser. O nome de cada um dos quatro andamentos diz tudo: Abertura: Fé, molto adágio; Duvidas, deciso; Lamento, grave, dolente; Dúvidas, Fúrias: Coda.
Faz sentido, a seguir, entrar no Andante molto flessibile que abre o Concerto para violino. Há algo de melancólico, há vida, algo de maestoso na integridade do olhar que a música propõe. E há algo de sublime – porque humano – que se consubstancia por inteiro nesse andamento final, iniciado em alegro, para desaguar no mais profundo lamento que encerra o álbum.
Na tradição da música e da poesia, a exposição do lamento vai mais além, implica necessariamente a elaboração de senti-mentos. Num mundo que desaparece, se há hipótese de sobrevivência e de compreensão do presente, se há hipótese de lucidez, passa obviamente por aqui.
A reflexão prossegue noutras obras do compositor, mais ou menos contemporâneas da Sinfonia (Subjetiva), como o Memorial para orquestra, a partir de José Saramago, ou as mais recentes Collections & Translations, quarto de cordas estreado este ano pelo Quarteto de Leipzig, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, e Oscuro, numa clareza imensa da sua essência para orquestra, estreada há perto de dois anos, no pós-pandemia, na Casa da Música, no Porto.
O compositor, nas notas de programa que acompanharam esta estreia, não permitiu dúvida alguma: “Cada obra é sempre uma resposta às determinações de um corpo e às determinações de um mundo”, António Pinho Vargas sabe da essência da humanidade, no seu melhor e no seu pior. Em Memorial, a partir de três obras-chave de José Saramago – Ensaio sobre a Cegueira, Ensaio sobre a Lucidez e As Intermitências da Morte – foi direto à parte mais íntima e fundamental da obra literária, esse
“painel subterrâneo”, o lugar onde se encontra o pulsar das suas “grandes metáforas”, um lugar que só não é indizível, porque, na sua própria raiz, a música o substancia. Os dois primeiros andamentos, em torno Da Cegueira, conduzi-ram-no “ao uso do termo basso profondo, não no seu sentido literal, mas como signo que assinala uma melodia grave, um baixo que emerge e anuncia
MICUFI MANSO
as consequências terríveis da epidemia”, escreveu na apresentação da obra.
Trata-se, como afirmou, de “uma figuração musical possível das violências de vários tipos que percorrem os três romances”, e se manifesta na multiplicidade da sua própria natureza: “Uma introdução, uma nova epidemia branca e um acender de luzes final que abre uma esperança, uma possibilidade nova sempre renovada, que termina num determinado acorde sem resolução”. Para Pinho Vargas, “essa é a metáfora musical final: as luzes permanecem acesas enquanto potência-por-vir”.
De algum modo, essa é também a possível redenção que a obra de António Pinho Vargas – toda a obra de António Pinho Vargas – transporta, a força de homens e mulheres, na lucidez do seu ser e na dignidade do seu querer, contra a cegueira, a violência e a morte imposta por outros homens e outras mulheres. Um acorde sem resolução, com a luminosidade do por vir.
A interpretação das três obras do álbum Lamentos demonstra o excelente nível da Orquestra Metropolitana de Lisboa, com o expoente de ambas as solistas virem do seu efetivo: a violinista Ana Pereira e a violetis-ta Joana Cipriano. A direção é do maestro titular, Pedro Neves. A gravação, efetuada em maio de 2023 no CCB, conta com o engenheiro de som Hugo Romano Guimarães.
O Concerto para violino foi estreado por Tamila Kharambura em 2016, também com a Orquestra Metropolitana, e gravado pela violinista noutro notável álbum do compositor (com Quasi una Sonata para violino e piano, e quatro Estudos para violino solo).
Lamentos venceu o Prémio Play de melhor álbum de música erudita 2024.
Jornal de Letras, 13-26 novembro 2024
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